Arquivo de Janeiro, 2009
Não há palavras para comentar a vergonha que temos de viver num País que é (des)governado por gente sem vergonha!
Se me dissessem há 34 anos, mais coisa menos coisa, quando vivíamos a euforia da libertação que o 25 de Abril foi, que, pouco mais de trinta anos, depois, tínhamos, em democracia, directamente decorrente de “Abril”, esta situação, com quase toda uma classe política que ocupa o Poder, indiciada nestas graves suspeições de corrupção, eu, sinceramente, não acreditaria.
Há tempos rebentou, com todo o estrondo o caso BPN, enlameando o PSD (e deste especialmente o cavaquismo). Agora temos este caso Freeport, em que, sobre o líder do PS e do Governo, pesam enormes e gravíssimas suspeitas de envolvimento num licenciamento, com alegadas irregularidades e, mais grave ainda, de ter recebido luvas, para o efeito.
Sublinhemos as muito oportunas palavras de Eduardo Dâmaso no “Correio da Manhã”, de 23-1-2009: “o caso Freeport está, como se previa, transformado em mais um cancro do regime … “ “Agora, face a uma acção mais incontrolada da PJ, do MP e de um Juíz como Carlos Alexandre, os podres vão emergindo e deixando um cheiro nauseabundo. Uma coisa é certa: Se este caso Freeport, tal como o muito que está escondido debaixo do manto do BPN, não fôr explicado, então, a uma crise económica profunda há-de vir a juntar-se uma terrível crise do regime democrático. Em certas alturas, já se sabe, é melhor cair tudo para construir uma coisa nova do que insistir num caminho sem remédio.”
Por outro lado convém não esquecer que uma das fortes hipóteses, a comprovarem-se os fortes indícios de um esquema corrupto, é a de que o esquema é novamente um caso de financiamentos partidários. Isso mesmo conclui o C.M. de hoje, 24 de Janeiro, dizendo: As investigações do caso Freeport indicam que o PS poderá ter sido contemplado com uma parte dos quatro milhões de euros em comissões que terão sido pagos a vários intervenientes do processo de licenciamento do maior outlet da Europa”. Ainda segundo o que CM nos diz, Júlio Monteiro, Tio de José Sócrates, dono da firma ISA, está indiciado em que“verbas terão saído de Portugal para Inglaterra através da ISA … e daí terão sido transportadas para offshores detidos pelo próprio Júlio Monteiro”.
Nestes últimos dias o caso teve uma aceleração espantosa e inesperada, para um processo há mais de três anos parado. Afigura-se que essa aceleração se deveu ao processo paralelo, que corre os seus trâmites em Inglaterra, facto que não é nada prestigiante para a Justiça portuguesa. Os escabrosos pormenores que nos últimos dias foram surgindo na imprensa, sobretudo no semanário “Sol”, obrigaram o Primeiro Ministro, cada vez mais explicitamente indiciado de ter recebido “luvas”, para que o processo de licenciamento fosse despachado favoravelmente, como, a toda a pressa acabou por ser (depois de inicialmente por duas vezes chumbado, por parecer negativo do seu Ministério do Ambiente), a vir agora, por duas vezes seguidas, a terreiro, justificar-se, não tendo, apesar disso, conseguido dissipar muitas das imensas dúvidas, sobre a lisura do seu comportamento ou do Ministério, de que era o principal responsável.
Começa por ser extraordinário e estranho que seja um Governo de Gestão, a escassos dias de abandonar o Poder, que a toda a pressa promova todos os pareceres para, com uma pressa raramente vista, despachar o licenciamento, chegando-se ao inusitado caso de aceitar comparecer, ao mais alto nível (Ministro e Secretário de Estado do Ambiente) a uma reunião, alegadamente pedida pelo Presidente da Câmara de Alcochete, em que estiveram presentes promotores do projecto Freeeport. Depois, também, é espantoso que o projecto seja aprovado (14-03-2002) e exactamente nesse mesmo dia, o Governo altera os limites da ZPE do Tejo, dando a nítida ideia que esta alteração visaria uma ser espécie de um “fato feito à medida”, para poder encaixar o projecto do mega Centro Comercial.
Sobre tudo isto, não deixando de dar alguma razão a João Paulo Guerra que escreveu no “Diário Económico”, a 13 de Janeiro passado, que “os portugueses pactuam com a corrupção (…) e a vista grossa dos poderes à alta criminalidade económica assume foros de completa indecência “, quero acreditar, que dadas as enormes proporções deste escândalo e as suas graves implicações na condução da política do País, ao mais alto nível, a Justiça seja obrigada a fazer o melhor que pode e sabe o seu trabalho e que, de qualquer modo, este PS e este seu mais alto responsável, venham a ser, politicamente, julgados pelo povo, com todas as decorrentes consequências, nos actos eleitorais que se avizinham. Sinceramente, se isso não acontecer, apetece-me emigrar, para bem longe destas e de outras consentidas vergonhas !…
Fernando Rocha
25 Janeiro 2009
O caso do FREEPORT de Alcochete é, bem vistas as coisas apenas mais um caso, que diz bem deste tempo em que vivemos e do País em que estamos; onde, bronca das broncas, o Primeiro Ministro de Portugal é suspeito de envolvimento num caso de corrupção ou, no mínimo, ainda que tal se não prove, de ter, quando o seu Governo estava a dois dias de abandonar funções, legislar no sentido de facilitar a vida a um grande projecto imobiliário (facto que só por si é altamente censurável). Este caso, em que estão envolvidas as entidades policiais e judiciárias britânicas e portuguesas, em investigações paralelas, é a prova provada que o País está a saque e que a política é (pelo menos aparentemente) feita, em Portugal, demasiadas vezes, em função de interesses que são estranhos ao genuíno interesse público.
Não nos chegavam já as implicações políticas, com fortes ligações ao PSD, a que o escândalo do BPN se ajusta, para, agora, este adormecido caso Freeport, ressurgir, em força, colocando o 1º. Ministro e, consequentemente, o PS, numa situação tremendamente delicada, em termos de suspeitas de corrupção.
Tudo isto desacredita a democracia e os seus principais actores políticos. Tudo isto afasta os cidadãos cada vez mais da política. Estando o País a atravessar uma profunda crise, agravada pela crise financeira mundial, este caso tem, entre outras consequências, a de mais ainda corroer a nossa capacidade de reacção à crise que atravessamos. Claro que este caso dá, ainda, mais vantagens políticas, à oposição de esquerda, para as eleições que se avizinham, mas, por outro lado, desacredita, aos olhos do povo, toda a classe política e isso, verdadeiramente, não constitui uma vantagem para ninguém, que do campo democrático se reclama.
As graves suspeitas que recaem sobre as ilicitudes no financiamento dos principais partidos são, em minha opinião, factos de grande gravidade, que nunca foram suficientemente investigados e que, a provar-se a suspeita de terem uma enorme dimensão e serem uma prática continuada e corrente, constituem um outro profundo golpe no nosso sistema político. Não fosse o facto de pertencermos à União Europeia e, muito provavelmente, estariam criadas condições demasiado favoráveis a um golpe de extrema-direita; mas, mesmo assim, esta continuada situação de descrédito, por força de tanta desonestidade e oportunismo, pode, não obstante o facto de integrarmos a União Europeia, favorecer a ascensão ao Poder de políticos populistas, do tipo “Salvadores da Pátria”.
Há muito que digo e cada vez mais convicto estou, de que o nosso principal problema é a corrupção. É por causa dela que somos um dos países mais atrazados da Europa. Temos de encontrar forças para vencer o flagelo da corrupção sob pena de, para além desta condenação ao endémico atrazo, perdermos o que ainda resta das esperanças de “Abril”. Esse “Abril” já distante que nos deu a liberdade e que nos prometeu mais justiça e solidariedade. Estes políticos desonestos e oportunistas, que tomaram quase conta do “centrão” político e dos interesses estão sendo autênticos coveiros dessa janela de esperança, para o Povo Português, que “Abril” foi. É imperioso e urgente, para não dizer patriótico, nas próximas eleições derrotá-los, para que essa “janela de esperança” de novo se abra e a boa memória de “Abril”, aos olhos do povo, de novo se prestigie.
Fernando Rocha
23 Janeiro 2009
A DOENÇA E A SAÚDE DOS “DINOFLAGELADOS”
“Dinoflagelados” é um nome estranho, com que me cruzei, pela primeira vez, há tempos, a quando do lançamento do livro de fotografias sobre a lagoa (a nossa vizinha Lagoa de Óbidos), que o saudoso livreiro, Sr. Silva Santos, desejava que em canal, feito para o efeito, à boa maneira da Inglaterra vitoriana, chegasse a Caldas. O livro lançado pela “Mar de Água”, na nossa vizinha e simpática Vila de Óbidos, constituiu um enorme sucesso, não só pela excelência de muitas fotografias, autênticas imagens de poesia, como, também, pela própria sessão de lançamento, que revelou uma preparação muito cuidada. Ora, tanto quanto bem compreendi, pela excelente exposição científica do Luís Costa Leal, este esquisito nome, que, à partida, a poucos alguma coisa diz, é o nome de um “bichinho”, penso que microscópico, que habita as águas da nossa lagoa e que se existir, nas lagunares águas, acima de certos níveis, faz perigar, por contaminação dos bivalves (berbigão e amêijoa, fundamentalmente), a saúde pública, uma vez que provoca intoxicações aos seres humanos, que naquelas condições os consomem.
O Luís Costa Leal, que como excelente comunicador me surpreendeu, teve inclusive o cuidado de nos presentear com um modelo, muitíssimo aumentado, não sei a que escala, de um exemplar do “bicho”, que, penso que por acaso, faz jus ao seu nome, como grande flagelo para os nossos estômagos humanos.
Ouvi com grande atenção a dissertação do Luís e (eu e todos os presentes) tivémos ocasião de ficar a saber que foi graças à grande dedicação de vários cientistas (que chegaram a trabalhar gratuitamente, sem a normal cobertura estatal), ligados penso que, sobretudo, ao Instituto de Saúde Pública Dr. Ricardo Jorge, que melhor ficámos a conhecer, em termos científicos, a forma como este animal se reproduz, de modo a pôr em perigo a saúde pública e à forma de combater, com maior eficácia, a proliferação das suas colónias.
Houve, todavia, uma dúvida que só chegado a casa se me colocou, com toda a objectividade e que é a seguinte:
- O que é que faz bem e mal à saúde do bicharoco ? O que é que constitui a base da sua alimentação ou o que é que, tal como a nós humanos, serve de tónico para a sua saúde – semelhante ao óleo de fígado de bacalhau, que em meados do século passado se dava às crianças e adolescentes para os tornar mais fortes ?
O que será que temos que pedir ao Dr. Fernando Costa, Presidente da Câmara da nossa cidade das Caldas da Rainha ? Será que lhe deveremos pedir para aumentar ou reduzir o caudal das nossas águas residuais que sabemos desaguarem, ainda, com pouco tratamento, na lagoa ? Ou dito mais prosaicamente, será que os esgotos fazem bem ou mal à saúde dos dinoflagelados ?
É que resolvida esta minha pertinente questão, com que me questiono, aqui me prontifico a levar a cabo um abaixo-assinado, pedindo ao nosso Presidente, menos ou mais esgotos, das nossas citadinas sanitas, a desaguarem na lagoa!
Sinceramente suspeito que sejam menos, mas, infelizmente, os meus parcos conhecimentos científicos, não permitem que desde já em definitivo me pronuncie.
Fernando Rocha
Nota: – O presente texto foi publicado como primeira página do suplemento “Mar de Água”, da “Gazeta das Caldas”, de 17-04-09, enriquecido com uma excelente fotografia de João Martins Pereira.
21 Janeiro 2009
- Portugal é cada vez mais, com esta governação socrática, um país sem rumo nem estratégia. O País, nestes princípios de 2009, é como um barco pelo mar à deriva, em que o comandante da embarcação finge ter um destino e disso nos tenta convencer. Mas um olhar mais atento, mais perspicaz, repara que tudo não passa de uma farsa, de um comandante que não tem categoria para o ser, embora, através de um markting bem montado, consiga, aos menos perspicazes, mascarar a sua inépcia, com rábulas que, verdadeiramente, de rábulas não passam.
É grave que assim seja e triste reconhecê-lo, mas não o reconhecer é enganarmo-nos a nós próprios ou, nalguns casos, esses “enganos”, não passarem de falácias, por cálculo, por interesses estranhos aos do País (onde avultam o oportunismo e o carreirismo político de “boys” e “girls”, já beneficiários ou ainda mendigando por mordomias, “made in” PS de Sócrates, por exemplo), fingindo, assim, que o rumo é o certo, por causa dos tais interesses, que apenas à corte do Poder servem ou poderão vir a servir.
A maioria da chamada classe política, em Portugal, sobretudo nos partidos do “centrão”, fazem, de facto, da política um emprego, apenas para servir os seus interesses mesquinhos, desprezando os valores mais nobres que ao exercício da política era suposto serem inerentes. Em grande parte o sentido do Serviço Público perdeu-se. E sem honra nem glória, estes políticos subservientes ao mando autoritário, dito “socialista” ou “social-democrata, agacham-se, quando não rastejam, a esse mando, porque se assim não procedessem perderiam o “emprego” e ou as benesses, que são o prémio, o preço, dessa sua subserviência. O triste espectáculo da fidelidade canina ao Chefe e ao Aparelho, dado pela maioria dos deputados do “centrão” é disso prova evidente.
- A notícia do semanário “SOL”, do passado sábado, l7 de Janeiro, sobre um DVD que denuncia, indicia, um ex-Ministro do Governo Guterres e autarcas de terem recebido “luvas”, é muito inquietante. O desmentido da Procuradoria-Geral da República que não aceita como prova o DVD, da denúncia, por ter sido gravado ocultamente, sem mandato judicial, não nos descansa. Alegadamente, segundo a notícia do “SOL”, um empresário britânico, “implica de forma explícita” um ex-Ministro do Governo de António Guterres. A notícia é muito clara em afirmar que a polícia britânica tem o caso a correr já com 15 suspeitos. Por outro lado, não é preciso ser-se muito perspicaz para se concluir haverem grandes probalidades desse ex-Ministro poder ser o actual Primeiro Ministro José Sócrates, uma vez que era ele o responsável, ao tempo, pela pasta do Ambiente. Só por mera hipocrisia ou medo do Poder, que ele detém, o seu nome é ocultado.
O País necessita com urgência de ver este caso, do “FREEPORT”, cabalmente esclarecido. Nem o Poder político, nem o Judicial, podem continuar a fingir que este caso não existe; ou, continuando-se neste autêntico jogo de sombras, de esconde esconde, de empurrar o lixo para debaixo do tapete, é toda a credibilidade do Estado Português que em causa, mais uma vez, fica. Chegam já as graves suspeições de como o Primeiro Ministro Português adiquiriu o seu curso de engenheiro !…
A provarem-se os tais alegados pagamentos de “luvas”, para despachar, favoravelmente, o licenciamento do “Freeport”, em Alcochete, como nos relata o “Público” de hoje (19-01-2009), num blog que publica, na rubrica “blogues em papel”, “ERA UMA GRANDE BRONCA”(!); mais uma a somar às outras grandes broncas, que, pouco a pouco, revelam um Poder por demais de nódoas, enxovalhado, que um dia destes cai mesmo de pôdre !…
- Não posso deixar de registar que é com muito agrado e orgulho que, ao ler a edição de hoje (19-01-2009) do “Correio da Manhã”, reparo que, numa sua reportagem sobre a Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro e mais concrectamente sobre o seu possível encerramento, o jornalista, autor da mesma, por duas vezes cita um artigo meu, aliás, neste meu blog publicado. Nessas referências aludo ao grave significado, para as Caldas da Rainha do fecho daquela unidade fabril e ao grande simbolismo da figura do “Zé Povinho”. Sinto-me, pois, gratificado por o meu activismo cívico ser, publicamente, reconhecido, pretendendo, apenas, com estas minhas causas, contribuir para que a minha cidade e o meu País, possam ser melhores.
Fernando Rocha
19 Janeiro 2009
Se o encerramento das outras fábricas de cerâmica na região das Caldas têm constituído uma enorme perda e um rude golpe para a economia da região, com principal destaque para a Secla, o possível encerramento da Fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, para além do problema económico-laboral, é de uma gravidade extrema, também por essas razões, mas porque a estas se adicionam outras, de enorme significado, por tudo o que aquela Fábrica em termos históricos e culturais é, para as Caldas da Rainha e mesmo para o nosso País.
Escusado será salientar, para os cidadãos mais informados e cultos, que esta fábrica centenária é muito mais do que uma fábrica de cerâmica. A Bordalo Pinheiro, para além de ser a herdeira de toda a genial e vastíssima obra de faianças do grande artista que à fábrica deu o nome, continua a ter entre os seus trabalhadores grandes profissionais e mesmo artistas do barro. Perder a “Bordalo Pinheiro” é perderem-se saberes e experiências únicas de como transformar o barro em autênticas obras de arte. Por outro lado estas faianças, com as suas belas peças, são a principal marca das Caldas da Rainha e uma das principais marcas de Portugal. Se o lugar de destaque, em termos de peças artísticas, vai para o famoso “Zé Povinho”, o nosso maior símbolo nacional, muitas outras, filhas da criatividade de Mestre Bordalo, são de uma invulgar beleza ou adicionando-se a esta a mais fina ironia.
Por tudo isto como caldense e como português lanço o meu grito de apelo a todos os que, para além de em termos artísticos, valorizarem, como eu, esta fábrica única, que continua a primar pela divulgação da obra do seu artista fundador e a ser, simultaneamente, um autêntica escola da arte de bem trabalhar o barro, mas também uma mais-valia caldense e portuguesa, que carece de ser devidamente aproveitada, para ser, no futuro, como tem todas as condições para ser, uma empresa de sucesso.
A luta destes trabalhadores da Bordalo transcende, pois, o seu próprio problema laboral, porque é uma importante questão Caldense e mesmo Nacional. Numa altura em que se salva um banco gestor de fortunas, obsceno será deixar morrer esta fábrica e a sua arte. Se a Fábrica Bordalo Pinheiro “morrer” todos nós (como caldenses e ou portugueses) morreremos um bocadinho.
Caldas da Rainha 15 de Janeiro de 2009
Fernando António da Costa Rocha
15 Janeiro 2009
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