Arquivo de Novembro, 2006

Caldas da Rainha na rota do Nazi-Fascismo

Previamente é preciso dizer que o bem mais precioso que a civilização humana pode ter é a liberdade.

A grande amplitude que se generalizou dar ao sentido da palavra “Liberdade” levar-nos-ia longe, procurando dissertar sobre aquilo que achamos válido e que entendemos da liberdade, ser aplicável às sociedades humanas, inclusive para melhor as defender.

Embora possa parecer contraditório, não há liberdade sem regras. Aliás uma das primeiras noções, que constam de qualquer manual de Direito, diz-nos que a nossa liberdade deve terminar quando invade, interfere, com a liberdade do outro.

Ora, na minha opinião, as balizas que coloco ao exercício da liberdade, em democracia, para simplificar e exemplificando (com uma certa exigência de contenção) passam por algumas questões essenciais, tais como:

Ø só entendo bem a liberdade, em sistema democrático, se combinada com uma forte preocupação de justiça e, de entre esta, a social;

Ø acho, também, que a liberdade de expressão (derivada da forma livre de pensar) não pode ter quaisquer limites e, concomitantemente, a liberdade de imprensa tem de ser, por todas as formas, assegurada pelo Estado democrático, de forma a assegurar o mais amplo pluralismo de opinião e a evitar tutelas económicas ou mesmo políticas, que, pelo seu desmesurado poder, ponham em causa o tal necessário pluralismo;

Ø Acho, também, que a chamada liberdade económica ou de mercado, sem regras ou com regras mínimas, assume aspectos de libertinagem e mesmo de tirania. Bem entendido tirania sobre os cidadãos, enquanto consumidores, que se tornam uma fácil presa dos grandes grupos financeiros e económicos, que, em minha opinião, tem de ser politicamente controlados (precisamente o inverso do que se passa, em Portugal, e em quase todo o mundo dito democrático, com o advento dessa preversão, que dá pelo nome de neo-liberalismo e que tem o seu principal paradigma nos E.U.A e, particularmente, na política do actual inquilino da Casa Branca).

Há, todavia, um aspecto ainda que controverso em que o exercício da liberdade (mesmo a de expressão e a de imprensa) tem de ter, pelos defensores da sua prática – os democratas – um particular cuidado. Refere-se este ao que fazer com a liberdade dos “apóstolos” da total ausência da liberdade, muito particularmente os grupos e partidos nazi-fascistas.

Procurando ir analisando este problema muito complexo que se põe, a qualquer democracia, é comum dizer-se, ainda que com uma certa linearidade, que não pode haver total liberdade para os inimigos, dessa mesma liberdade; isto porque, em última análise, o não cuidado dos regimes democráticos, com esses grupos e indivíduos, pode, ao extremo, ser suicidário para o regime democrático. Isto não falando já na exigência, para segurança de toda a sociedade democrática, que ela tem em reprimir toda e qualquer acção violenta, violadora da lei democrática e, por maioria de razão, a oriunda de grupos nazis-fascistas ou outros de idêntica índole.

Ora, como é sabido, no dia 1º de Maio, pretérito, o PNR (capa legal e eleitoral da extrema-direita, nazi-fascista) manifestou-se Caldas – pasme-se – para celebrar, à sua maneira, a simbólica data, do Dia dos Trabalhador!…

A escolha da nossa cidade, como já foi escrito e dito, na Assembleia Municipal, não foi um acaso. Disse e volto a dizer que essa escolha, foi obra da existência de condições favoráveis e de facilidades oferecidas pela nossa edilidade à realização de um concerto no centro de juventude, a um grupo de rock, conotado com a Extrema-Direita. E, por último, muito provavelmente, as outras condições favoráveis são completadas com a existência na nossa cidade de um núcleo bastante activo da referida formação nazi. E, também, não será por mero acaso, que no passado dia 10 de Junho (dia de Portugal), data muito do agrado da Direita e da Extrema-Direita, que, na sequência da já tradicional manifestação nazi-fascista, houve distúrbios graves, de cariz racista, com soqueiras metálicas e com o aparecimento de uma arma de fogo ilegal; e que, havendo detidos, de entre os desordeiros, três deles (“skinheads”) eram de Caldas.

É bem provável que alguns destes jovens caldenses estejam algo equivocados com a verdadeira natureza destes grupos, que com a máscara nacionalista propagandeiam a violência, o ódio xenófebo (sobretudo ao negro) e, sobretudo, defendem, em última análise, a abolição da democracia e, consequentemente, da liberdade. É provável de facto que haja da parte de alguns destes caldenses jovens alguns equívocos e alguma ingenuidade, mas os seus mentores (os seus chefes, visíveis e encobertos) sabem bem o que querem e o que fazem. Têm uma estratégia e uma táctica que, progressivamente, vai sendo aplicada para, simultaneamente, espalhar o pânico, o ódio, a violência racista, o descrédito da democracia e, por outro lado, ganhar mais adeptos.

Utilizando bem, com eficácia, a Internet para propagandear a sua mensagem extremista, chegaram, na nossa cidade, ao requinte de no dia 1º de Maio fazer (através da sua associada “Frente Nacional”) um comunicado dirigido ao comércio tradicional, que em alguns aspectos tem uma mensagem que muitos democratas não teriam pejo em subscrever. Só que esta defesa do comércio tradicional tem subjacente o ataque a todo o comércio estrangeiro. E o “estrangeiro”, o diferente (sobretudo de outra cor), é o inimigo – o objecto principal do seu ódio.

É necessário, pois, que, pesem embora todas as diferenças que dividem os democratas, saibamos, na defesa intransigente da liberdade, estamos unidos (cerrando fileiras) na sua defesa.

A recente assembleia municipal em que a questão se colocou, a abrangência partidária das intervenções de crítica a estes grupos e à sua ideologia, foi nisso exemplar. Assim devemos continuar.

Será ainda bom que o Centro de Juventude saiba encontrar actividades enquadradoras da juventude que (numa activa auto-crítica ao concerto nazi) propagandeiem os ideais da liberdade, da democracia (na sua vertente cívica, cidadã).

Será bom, também, que a caldense política sénior seja menos velha, por ser carreirista e oportunista, com menos “jobs for the boys” e mais espírito de serviço às comunidades caldenses, levando-as a acreditar nas virtualidades da democracia, que é uma vivência diária e não um voto que se exerce de 4 em 4 anos.

O melhor antídoto para os vírus que tornam enferma a democracia é a sua prática ser alargada a toda a comunidade. Uma democracia apenas de eleitos é uma democracia vulnerável e pouco saudável (o presidente da Junta, Sr. César Tempero, que me criticou por eu intervir “roubando” tempo aos eleitos, no uso da qualidade de munícipe, deve pensar nisto. Talvez com tudo isto compreenda melhor as razões do meu voluntarista empenhamento).

Caldas da Rainha, 22 de Junho de 2006

Fernando Rocha

Adicionar comentário 28 Novembro 2006

A propósito de Luís Pacheco

(um texto para os caldenses mais jovens)

Muitos dos que este texto vão ler ou nem sequer associam este nome a um dos maiores escritores portugueses, vivos ou sabendo-o, são capazes de não associar o seu nome à nossa cidade. Acontece, todavia, que essa personagem singular, única, de escritor e de figura humana, por meados dos anos sessenta, até finais dessa década, mais coisa menos coisa, nas suas imensas deambulações, viveu nas Caldas, seguindo com a sua imensa rebeldia, libertina (ao mais alto grau, que se pode conceber) para arejar estes ares termais e chocar, com as suas constantes provocações, a sociedade caldense de então (sobretudo aquela que venerava o tirano – o “Botas” de Santa Comba). O salazarismo caldense não sei bem se tinha uma verdadeira consciência da importância que o Pacheco tinha para a maioria dos oposicionistas, ao beato e fascistoide regime. O Pacheco representava para nós (mesmo para os mais jovens, como eu) o herói ou o anti-herói, para o caso tanto faz, que tinha a coragem de viver à margem, sem nenhuma espécie de cedência, não se protegendo, numa sociedade agrilhoada, zurzindo a tirania à sua maneira, que embora terrível, era ridícula e que deu origem, salvo erro, na Suécia, o país mais avançado da Europa, ao tempo, ao famoso texto intitulado “O Canto do Espantalho Lusitano”, que retratava o tirano, o ridículo Salazar e o seu regime ditatorial; regime, também, de opereta, dado o lado por demais ridículo de muitas das suas teses (como a do Portugal do Minho a Timor).

Estávamos, nesse tempo, em plena guerra colonial e o regime, fazendo da guerra e do “Império Ultramarino” a sua causa, não permitia à oposição a menor veleidade. Vivíamos a oficial mentira, que todos os meios de comunicação social, com honrosas excepções (“República”, “Diário de Lisboa” e pouco mais), propalavam, com destaque para a RTP, principal meio de propaganda, ao serviço do regime.

O Luís Pacheco surgiu nas Caldas, tanto quanto sei, pela mão da família Freitas, mais particularmente o Dr. António, que o apoiava e protegia, bem como toda a malta da oposição. O Pacheco volta na volta (por algo que dissesse, escrevesse ou fizesse) “ia dentro”. Era já uma figura conhecida no “chelindró” caldense, parecendo-me até que tinha a consideração do carcereiro, se não mesmo a amizade. Na cadeia não o deixavam beber, como é óbvio e ele lá se aguentava um pouco melhor e até aproveitava para escrever. Por esses tempos o Pacheco apanhava bebedeiras monumentais. Recordo-me de ao conviver com ele, por vezes, em resultado do vinho, quase não se perceber patavina, do que ele dizia, porque embora não perdesse a graça e a erudição, tinha momentos em que o seu discurso decorria com palavras em que ele não pronunciava as últimas sílabas, quando os “vapores alcoólicos”, mais o toldavam.

O Pacheco era e é (felizmente, ainda) um provocador a todos os níveis e que fazia gala de caçar “figurões”, farsantes, “pavões” e outros que tais; gente que vivia à sombra do regime, ou mesmo que, contestando-o, não era coerente e, volta na volta, fazia “sacanice”. O Pacheco era um arguto e cruel “caça sacanas”, que é pena estar velho e gasto, para poder, agora, neste tempo, dito de democracia, “caçar” alguns “democratas” deste poder partidocrático, do rotativismo partidário português, destes novos tempos. E se há aí tanto sacana, farsante, corrupto, para caçar! Mesmo aqui “em Caldas” (como o Manuel Gil me critica de eu dizer), há bastante dessa fauna, que o Pacheco, num ápice, “apanhava”, pondo-lhe a “careca completamente à montra”.

Tenho saudades, não do regime, que como o Pacheco dizia, precisava de bombas para ver se caía (coktails molotov), que ele ensinava os jovens a fazer e que, sem fazer mal a ninguém, deviam estoirar frente à Câmara (o velho edifício da praça da fruta), para abanar a sociedade de M… e de mentira que então nos sufocava. Tenho saudades dessa corajosa rebeldia, na sua figura mais franzina do que a minha, que para os jovens era muito solidário e respeitoso. O Pacheco era um bom amigo de muitos jovens e ensinou-nos a detestar ainda mais a ausência da liberdade.

Hoje recordo o Pacheco, depois de ter visto na RTP2 um excelente programa sobre ele, como escritor e Homem. O polémico Pacheco fez muito pela liberdade que ao “25 de Abril”se seguiu e que hoje ainda vivemos; hoje, embora critiquemos muitos políticos que em democracia, o poder exercem, temos direitos, sem ir parar ao “chelindró” de os zurzir, tal como o Pacheco coerente e corajosamente sempre fez (por mais miserável que fosse a sua vida e a da sua imensa família) sem cedências de nenhuma espécie à corja fascista.

Caldas da Rainha, Agosto de 2005

Fernando Rocha

4 comentários 26 Novembro 2006


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