Arquivo de Agosto, 2006
Num momento de génio
Um génio disse um dia:
- “Só sei que nada sei!”.
Olhando nós através
Através duma janela
E observando a noite,
O carro que passa,
O lunático que contempla
O seu Mundo,
Verifica-se mais uma vez
Quase toda a gente sabe
Que nada sabe.
Falo comigo mesmo,
Repito frases que conheço,
Por tantas vezes as ouvir repetir.
Se eu sei que nada sei
Apenas repito!
Um carro,
Um casal conversa
Entre o luar frio de Janeiro
E o asfalto negro da calçada.
Vim para casa mais cedo
Para fazer Poesia
E eis que olho a janela,
Conto os transeuntes
E a musa não vem…
Mas eu até poderia fazer Poesia
Por exemplo:
- Os passarinhos
Vão aos ninhos
P’ra seus filhos alimentar
(o guarda nocturno acaba de passar)
……………………………
Pronto a musa foi-se
E a rima foi forçada.
É absurdo!
Eu sei que é absurdo
Um Zé-ninguém, como eu,
Querer fazer Poesia!
Mas como só sei
Que nada sei,
Nem eu nem mais ninguém,
Faço poesia!
Olho a janela
O vento freme-a
Meus olhos tremem
Meu coração quer mais calor!
Longe do Mundo,
Longe do calor,
Longe do frio,
Enfim longe de tudo
Eu faria Poesia;
Falaria como um mudo
Gesticulando,
Apenas pensando,
Sem regras gramaticais,
Sem dogmas,
Sem deveres sociais,
Sem moscas,
Sem homens,
Enfim só,
Sem animais
Sem parasitas,
Só comigo mesmo
Eu travaria diálogos
Ao infinito!
Alcobaça, 5 de Fevereiro de 1969
20 Agosto 2006
Fumo distante
Que me faz arder a esperança
Fumo sem fogo
Que me queima o desejo,
Lentamente.
Fumo de cigarro,
Copo de cerveja
Cheiro a esquecimento!
Fumo sem fogo,
Vida sem chama,
E pressinto o vazio
Além de tédio,
Muito tédio!
Caldas da Rainha, 13 de Janairo de 1968
15 Agosto 2006
Os gatos brigavam no telhado.
A chuva fina,
Mas persistente caía;
Eram duas horas,
Já se tinha almoçado,
Tentei espantar os gatos,
Não fui obedecido!
A minha missão
Era obrigá-los a parar,
Porém, a chuva continuava caindo
E a minha mágoa subindo,
Pois os gatos
Continuavam brigando!
24 de Fevereiro de 1966
8 Agosto 2006
A noite estava tão fria
Uma chuva fina, mas contínua,
Impiedosamente caía.
Na gare aquela gente esperava.
A um canto um casal velho
Dormitava desconfortavelmente.
Uma mulher ainda nova
No colo, embalava uma criança
Que chorava.
O comboio tardava,
Todos de vez em quando,
Deitavam os olhos a um velho relógio,
Que ainda se mantinha no seu posto,
Informando o tempo,
Um incansável funcionário
Surgia e informava:
- O comboio traz mais….
Cinquenta e cinco minutos de atraso!
As respirações apressavam-se,
Os nervos aumentavam,
No entanto, a um canto,
Um velho cão lucrava com o infortúnio,
Alguns iam-lhe doando
Uns nacos dos farnéis
Já frios, já insípidos,
Para o requintado humano,
Mas não para um estômago canino
Que comia apenas restos.
O casal de velhos dormia,
Mas agora profundamente,
O cansaço havia-os vencido!
O velho relógio marcava,
Compassado e indiferente,
Uma hora e quarenta e cinco
Do dia há pouco iniciado.
Não havia ninguém feliz ali
Apenas o cão,
O velho cão,
Lambia os beiços
De estômago reconfortado!
Cigarros sem qualidade
Ardiam no cinzeiro e no chão,
Pois os homens maquinalmente,
Ao acordarem daquele pesadelo,
Daquele horrível compasso de espera,
Preenchiam mais três minutos fumando.
Nisto a corneta
Do ferroviário soou irritante.
Faltavam apenas minutos,
Muitos escassos,
Para que o trem,
Esse desejado monstro de aço,
Entrasse na velha estação.
Todos o esperavam
(ansiosamente),
Mexiam-se e remexiam-se
Malas, cestos e saquiteis;
Guardava-se ainda uma melhor iguaria
Ou apenas que restava dos frios farnéis
Ia-se apossando daquela gente
Um frenesi, um reboliço
E de repente,
Um ruído ao princípio vago,
Depois mais certo,
Começou-se a ouvir
E aquela gente mais se agitou
E por fim o comboio apitou,
Todos nele seguiram,
Apenas o cão,
O velho cão,
Dormindo, ficou!
3 de Novembro de 1970
6 Agosto 2006
A flor que murcha
Mas não morre,
O tempo que arrefece
Mas não esfria,
É dor que prende
A nostalgia!
Também eu arrefeci,
Mas não morri,
Tenho revoltas dentro de mim,
Sinto que estou só
Porque quero, porque amei
Porque berro:
- Não, não!
A sorte do mundo
Abandonou-me há muito,
Ó ódio no meu peito
Se alojou, sinto que nada sou.
Queimo o passado adverso,
Riscos os dias do calendário, para quê?
É apenas um processo
Para me esquecer do mundo
Do amor, do ódio,
Da revolta
E até de que existo!….
1968
5 Agosto 2006
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