Arquivo de Março, 2006

O Cofre

 

O COFRE DE PREVIDÊNCIA

DO

MINISTÉRIO DAS FINANÇAS

 

A virtude da sua simples existência, ao serviço do funcionalismo
público, ao longo de mais de um século e seus endémicos
escândalos de gestão ruinosa, senão danosa, no pós 25 de Abril.

 

 

Neste blog faço questão de que o “COFRE” ocupe um lugar de destaque por ter um conhecimento mínimo da instituição, a que dediquei de uma forma completamente desinteressada (diria até, se me é permitido, altruísta), muito do meu trabalho de militância cidadã e sindicalista, sem que tenha conseguido, ainda, ver esse esforço recompensado, o que para mim seria colocar esta centenária instituição ao serviço exclusivo dos seus associados e da nobre e velha causa mutualista (no fundo as causas do associativismo e da solidariedade).

Passarei assim por respeito por mim próprio e de todos aqueles que generosa e honestamente ao “Cofre” se dedicaram, a descrever, em síntese, o que é o Cofre; para de seguida denunciar todos os figurões oportunistas (num misto de compadrio e “mafiosidade“) que do “Cofre” se serviram, nunca ou quase nunca, cuidando de servir os seus generosos fins primordiais, em claro desrespeito pela sua história e por todos aqueles que dele souberam fazer uma das mais sólidas instituições de solidariedade social, a nível nacional (agora, infelizmente, uma instituição, desses fins, muito desvirtuada).

Ao longo desta secção do blog desfilarão histórias inconcebíveis de banditagem de “colarinho branco” e de misteriosas cumplicidades, aos mais elevados níveis da hierarquia do Estado.

O “Cofre” é bem o espelho do estado a que deixaram chegar este país, que neste como em muitos outros casos (infelizmente) é só de “Abril” por alcunha e que de “Estado de Direito” só tem o nome (com tanta impunidade, para tanta vigarice, tanto no cofre como no próprio Estado).

 

 

 

O QUE É O “COFRE”?

O Cofre de Previdência do Ministério das Finanças (actualmente denominado Cofre de Previdência dos Funcionários e Agentes do Estado) é uma instituição centenária do tipo mutualista (por conseguinte uma mútua).

O Mutualismo pode definir-se como um movimento sociológico e económico que forma associações encarregados de repartir os riscos sociais entre os seus filiados.

O mutualismo nasceu em Inglaterra, em meados do século XVII. As primeiras mutualidades formaram-se com pessoas que se comprometiam a suportar, em comum, os custos da enfermidade e enterro dos seus membros.

O movimento estabeleceu-se, em França, com as “sociétés de scours mutuels”, que apesar da oposição do Estado (ao tempo), se estabeleceram firmemente na última metade do séc. XIX. Este movimento estendeu-se a todo o mundo chamado civilizado e, assim, em Portugal, nasceu o Cofre de Previdência do Ministério das Finanças, em 24 de Dezembro de 1901.

O “Cofre” que tem actualmente mais de 50.000 (cinquenta mil) associados, segundo o relatório e contas de 2002, tinha em 31 de Dezembro, daquele ano, um fundo social de 39.826.130,85€ (cerca de 8 milhões de contos). Os seus investimentos financeiros integram imóveis de rendimento e títulos da dívida pública. O número de funcionários ao serviço do “Cofre”, em 31-12-02, era de 68.

No final de 2002 as imobilizações corpóreas tinham um valor contabilístico de 13.307.396,69€ (tendo, em tempos, esse valor sido estimado em cerca de mais de 80 milhões de contos, a preços de mercado). Os investimentos financeiros orçavam em 1.887.519,37€. Eram pois estes (somados) os valores do activo bruto, em 2002. O activo líquido constante do balanço (2002) era de 43.361.501,11€, sendo o resultado líquido desse exercício de 5.364.163,25€ (ou seja mais de 1milhão de contos).

Penso que todos estes elementos dão bem a ideia do que devia ser o “cofre” (poderia ser, se outra competência, menos fraude e mais espírito de entrega idealista houvesse).

Antes de neste trabalho entrar no relato das diatribes e malfeitorias a que o Cofre, nestes últimos anos, tem sido sujeito, com elevadíssimos prejuízos para os seus associados, sobretudo os mais novos, e em princípio de vida ou os aposentados e trabalhadores mais modestos, sócios desta instituição, com estatuto reconhecido de utilidade pública, logo no seu artº 1º, dos seus estatutos – que dadas as circunstâncias de gestão ruinosa e suspeita de danosa, pelo menos no período negro do consulado de Guerreiro Lourenço (tendo Malheiros e Duque, como principais acólitos, de deriva prepotente e quiçá fraudulenta) constitui uma perplexidade – farei uma análise aos Estatutos, que com notas reproduzo.

São, então, estes os Estatutos do Cofre:

Clique aqui para descarregar os estatutos

 

Convirá salientar que a principal alteração que aos actuais estatutos se propõe é fundamental para dar ao Cofre uma vida associativa verdadeiramente democrática. A redacção em vigor para além de constituir uma muito provável inconstitucionalidade (que a seu tempo poderá ser suscitada), tem como consequência prática (dificílima de ultrapassar) a quase impossibilidade de constituição de listas alternativas a todos aqueles que sejam críticos da Direcção, no poder, uma vez que a norma obriga à inclusão, na lista de candidatura de dois trabalhadores do “cofre” e mais dois suplentes, também com essa condição (artº 94º e 95º).

A história desta norma conheço-a bem. Tem a ver com o período sequente ao “25 de Abril”, em que depois de ser saneada a direcção da confiança do regime Salazarista/Marcelista, que geria o “cofre”, numa lógica acusada de amiguismo e de favorecimento aos altos quadros da função pública, ao tempo, em detrimento da maioria dos restantes associados, bem como tendo havido (nunca totalmente esclarecido) “desvios” de dinheiro na Instituição e até um suicídio de um seu membro, criou-se uma norma, para maior segurança, na lisura da lide com os valores e benefícios, pelo “cofre” atribuídos; norma que obrigava a que aos 5 membros da Direcção, o Plenário dos Trabalhadores do “cofre”indicasse 2, que completariam o elenco da Direcção.

A norma tinha alguma lógica uma vez que numa instituição com uma vida associativa até então viciada e por demais incipiente, não conhecendo os associados, na sua esmagadora maioria, os membros da Direcção, a escrutinar e a sua completa isenção e honestidade, seria bom criar uma norma, desta natureza, que funcionasse como válvula de segurança. Foi esta como poderia ter sido outra.

De qualquer modo a norma não obrigava a que da lista já contassem os dois trabalhadores do “cofre”. Mas antes e num processo muito mais transparente, do que o actual, era ao Plenário dos Trabalhadores do “cofre” que competia essa eleição.

Ora quando Guerreiro Lourenço entrou para o “cofre” era aquela norma que estava em vigor e, este, maquiavélica e ardilosamente, em conluio com acólitos cúmplices e outros incautos, propôs que (tal como está) deixasse de incumbir ao plenário dos trabalhadores aquela função, mas antes fosse a lista (ele) a escolher a seu belo prazer os dirigentes, simultaneamente funcionários do “cofre”; isto por um lado para retirar força ao plenário dos trabalhadores (aos próprios trabalhadores, da instituição, portanto) e para melhor atingir os fins obscuros a que se propunha.

As consequências práticas disto foram em primeira linha a “domesticação” mais acentuada dos trabalhadores do “cofre”, sujeitos à escolha do “dono” ou “donos” da casa e a quase completa impossibilidade de formação de listas de oposição, como já anteriormente referi.

O que não deixa de ser curioso é que Guerreiro Lourenço (tido como um ex-homem de Esquerda, quando o PCP tinha um importante núcleo no seu, então, 3º Bairro Fiscal, onde prestava serviço, nos tempos de “PREC”[1] e imediatamente seguintes) entrou com pezinhos de lã, com largos apoios, para o cofre, no início dos anos 90 ou nos finais de 80 e, enganando tudo e todos, construiu a pouco e pouco um “polvo” com tentáculos tanto no “cofre”como na Administração Fiscal.

O seu cargo de Director de Finanças funcionava como uma “mais-valia” para o lugar de Presidente do “cofre” e vice-versa. Tudo isto poderia constituir uma vantagem se fosse utilizado de uma forma não oportunista e honesta, mas (infelizmente), na maioria das situações, foi o contrário disto que aconteceu. Foi um “fartar de vilanagem”, que nem o Estado (que através do Ministério das Finanças exerce tutela) bem como o poder judicial se demitiram, inexplicavelmente, de investigar, não obstante os muitos e variados indícios de gestão ilegítima e danosa no “cofre”. Estas demissões são tanto mais lamentáveis conquanto vivemos em regime (apesar de tudo) democrático, embora nesta, como noutras situações, funcione como uma partidocracia, que permite (sabe-se lá porquê) os maiores abusos, deixando que situações muito deploráveis (por fraudulentas ou não conformes o regime democrático) praticadas por autênticos “vermes” a corroam e, aos olhos dos cidadãos, a descredibilizem.

A falta de transparência, a prepotência e a corrupção (sobretudo) são as principais endemias da nossa democracia, tornando-a uma caricatura de si própria.

Sobretudo nos últimos anos do século passado e primeiros do actual o cofre começou a estar debaixo dos holofotes da comunicação social pelas piores razões. Disso darei conta através de textos de 2001, por mim devidamente assinados e outros que, infelizmente, se refugiam no anonimato, mas que circularam, sobretudo, pelos Serviços de Finanças.

Antes, porém de passar à divulgação de todo esse material que ilustra a história negra do “cofre”, convirá reforçar para melhor fazer, digamos, uma espécie de um bilhete de identidade da instituição, que esta, para além dos seus 50.000 associados (um número que por si só dá uma ideia do gigantismo da instituição) e um património, cujo valor, à cerca de 5 anos foi estimado em perto de 100 (cem) milhões de contos, segundo os valores de mercado. Por outro lado convirá não esquecer que o “cofre”tem tutela do Estado através do Ministério das Finanças, numa espécie de legitimação e garantia dos actos do seu órgão deliberativo (a Assembleia-Geral), bem como dos seus corpos sociais (mesa da Assembleia Geral, Direcção e Conselho Fiscal) eleitos pelos sócios que têm a soberania da instituição, com esta salvaguarda da tutela do Estado, que como se vê pelos estatutos que atrás reproduzo são legalizados (aprovados e alterados) por decreto-lei, de competência governamental.

Também é importante referir, em abono da verdade que desde 2002 outras direcções e restantes corpos sociais têm estado à frente da instituição e que se melhorou, relativamente aos aspectos mais gritantemente escandalosos. Sendo a Direcção, desde então liderada pelo ex-Director de Finanças Empina Moscas. A partir destas novas direcções e do afastamento de Guerreiro Lourenço a situação do cofre, em termos de gestão e de escândalo, de facto, melhorou. Todavia, estas novas direcções têm a fragilidade de terem sido de uma forma bastante obscura constituídas com o beneplácito do antigo “dono” do cofre e daí que nunca tenham promovido uma rigorosa auditoria às direcções anteriores (indiciadas ou suspeitas de gestão ruinosa, quiçá danosa), bem como continuem a exercer uma gestão baseada num certo amiguismo ou numa gestão de compadres (veja-se onde foi construído mais um lar) e, sobretudo, numa perspectiva que se queria mais dinâmica, apoiando-se em sinergias com outras instituições de solidariedade e de trabalhadores, para melhor rentabilizar o património do “cofre” (sobretudo o financeiro) e, consequentemente, possibilitar à generalidade dos associados mais regalias e benefícios.

Embora já não resida em Lisboa, mas sim nas Caldas da Rainha, estando já aposentado, procurarei dar ao “cofre” um contributo mais militante, que nos últimos anos, em que prestava serviço no Bombarral e tinha já residência nas Caldas.

É assim que conto participar, o mais activamente possível, nas próximas Assembleias-Gerais. Sempre de uma forma desinteressado, desdenhando mordomias, como foi sempre a minha postura.

Servir o cofre (para mim) é servir um ideal que tem como cimento unificador o aprofundamento da democracia e da solidariedade. É, pois, com esse ânimo que participarei na Assembleia-Geral, do próximo dia 30 de Março, na Sociedade de Geografia de Lisboa, na Rua das Portas de Santo Antão, pelas 21horas.

Caldas, 22 de Março de 2006

Fernando Rocha



[1] PREC – Processo Revolucionário em Curso – esta designação (PREC), que os mais novos desconhecem, foi incluída no vocabulário político nacional, porque mais ou menos justificadamente, em tempos de revolução (1974 e 1975), surgia em discursos e textos a propósito a até a despropósito, por muitos até que o queriam, pura e simplesmente, nos seus aspectos mais libertários e generosos, anular e regressar a uma situação muito próxima à da anterior ditadura (isto de uma forma hipócrita, dissimulada)

Notas aos documentos anexos e disponibilização de outros dados:

a) todos os anexos que se seguem, à excepção dos por mim assinados, foram divulgados sem serem assinados, o que se lamenta;

b) ver noutra secção deste blog a “Carta Aberta ao Procurador-Geral da República, onde se fazem referências ao “Cofre” (pag.6) e, muito particularmente, os seus anexos a saber:

- pag.3 da “carta aberta dirigida aos mais destacados activistas do STI ….”;

- anexo 5 (carta aberta ao Ministro das Finanças);

- entrevista ao “Correio da Manhã” de Rui Canas, sob o título “Ganhei milhões no Cavaquismo”, na segunda coluna da segunda página, sobre Paulo Malheiro, que continua em funções como Director de Serviços do “Cofre”;

c) alguns documentos divulgados profusamente nos Serviços de Finanças (sobretudo), ao tempo (2000/2001), fazem referências a pessoas minhas conhecidas e amigas, por quem tenho consideração; todavia, seria incorrecto, só por esse facto, amputar os documentos dessas referências; a optar pela divulgação dos documentos ou o faço na íntegra ou os omito, pura e simplesmente;

Optei por os divulgar pois ilustram uma época, na Administração Fiscal (e não só), fértil em indícios e denúncias, que abalaram o “Cofre” (bem como, evidentemente, a Administração Fiscal), o que não deve ser obscurecido (branqueado);

Tenho para mim, não obstante uma quase generalizada impunidade nos crimes de corrupção fiscal (impunidade, essa, tão escandalosa, quanto a corrupção, em si mesma), que a verdade é como o azeite na água, que, mais coisa menos coisa, vem sempre ao se cima, tal como diz o ditado popular; ressalve-se apenas a particularidade de que nos crimes de corrupção nem todos serem descobertos, por desleixo do Ministério, da Administração Fiscal e da Justiça (por razões de ineficiências diversas ou por escandalosas cumplicidades), estando, todavia os corruptos perfeitamente identificados ou tornando muito fácil (se vontade política houver) a sua identificação;

Assim, como se pode concluir de tudo o que aqui se expõe, que as principais responsabilidades, do que de mais grave no “Cofre” se passou, tem, fundamentalmente, 3 (três) rostos, que são:

- Ex-Director de Finanças Guerreiro Lourenço;

- Ex-Director de Finanças António Silva Duque;

- Director de Serviços do Cofre Dr. Paulo Malheiro

Os outros, por muito importante que seja a sua posição nos serviços ou estatuto social (embora possam ter sido em vários casos cúmplices ou menos atentos às “maroscas”), neste caso do “Cofre” funcionam como figurantes sendo até, por vezes, vítimas dos 3 (três) principais figurões, que para melhor obterem os benefícios dos seus fins oportunistas ou fraudulentos, tiveram o engenho e a arte de na trama os envolver, mais ou menos maquiavelicamente.

Clique aqui para descarregar os restantes anexos

4 comentários 29 Março 2006

O Caso “BELTRÓNICA“

O caso “Beltrónica” é um caso exemplar e que, por ironia do destino, me envolve.
Trata-se de corrupção fiscal no seu melhor, com cumplicidades do mundo empresarial com o de figuras do Estado, tanto ao nível político como dos seus quadros dirigentes. Pelo menos para isso apontam os indícios.
Tendo eu, pessoalmente, como chefe adjunto do 8º Bairro Fiscal, intervido no processo fui constituído arguido e antes disso objecto de averiguações, em processo disciplinar.

O facto deste loudaçal me atingir é de facto uma ironia. Ironia para quem sempre (e no caso também) se bateu contra a corrupção e a evasão fiscais, como pela sua maior eficácia.

A carta ao Procurador-Geral da República faz parte da minha argumentação de defesa e de protesto, tanto pela inocência, como pelo estado de atraso a que este caso, bastante importante e paradigmático, pela justiça foi e continua a ser votado.

Clique aqui para descarregar o PDF
(todo o Documento e respectivos Anexos)

1 comentário 26 Março 2006

Baixa médica de Manuel Alegre

“Baixa médica de Manuel Alegre” – Uma indignação ou uma diatribe?

Não tenho procuração de M. Alegre para o defender, no seu legítimo direito de usar a baixa médica para se recompor. Defesa que vem a propósito de um ataque demagógico e injusto que, nas páginas do “Público”, de 4-2-2006, a leitora Mariana de Sousa, lhe fez. Todavia esta leitora ao permitir-se tornar pública a sua indignação “terá de admitir que outros, para além do ilustre visado, também se indignem com a sua genuína ou pseudo indignação. E, mais do que isso, aceitar que, para além da injustiça e da demagogia que a sua “indignação” noutros possa provocar, pela forma leviana como o faz, “traz água no bico”, pretendendo denegrir não só a figura de Manuel Alegre, mas também os valores de que a sua candidatura foi portadora.

Procurando desmontar a sua coxa e demagógica argumentação, ouso perguntar-lhe se nalgum momento da sua vida viveu ou se imaginou ter a vida que o candidato M. Alegre teve, durante meses, dias e dias seguidos, com o esforço e o stress daí resultantes?

Será que alguma vez a senhora fez, sem descanso, quilómetros e mais quilómetros, de manhã à noite, dias e dias seguidos, preparou e fez discursos, ouviu pessoas, deu entrevistas, etc., etc…(?)

Será que já se esqueceu que o malogrado Prof. Sousa Franco, morreu ao fim de dias, em tarefas idênticas, de campanha? Será que o extremo cansaço não configura a situação de doença e, consequentemente, o atestado médico?

Mas mais do que tudo isso, acha V.EX.as que alguém que mais do que “ganhar dinheirinho”, como M. Alegre podia ganhar só pelo talento da sua escrita, pelo contrário, correu o risco de se endividar, com os custos de uma campanha, “comprou chatices” dentro e fora do seu partido, correndo só, na defesa de ideais, de valores e de princípios, merece essa sua “indignação” ? Ou não será que essa sua indignação mais não é do que um insulto gratuito, infame e injusto?

Para si, certamente, um administrador, um banqueiro, enquanto gestor (altamente remunerado) poderá usar da figura da baixa médica, no exercício da suas funções, mas M. Alegre, em trabalho extra e gratuito, para bem de Portugal e dos Portugueses não!

Se a demagogia e a injustiça pagassem imposto…

Fernando Rocha

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Dia 1 dum Socrático “Cavaquistão”

Dia 1 (um) dum Socrático “Cavaquistão”

e o negro panorama futuro caldense

Para quem tem alguma lucidez, está atento e informado, não acredita na descida à Terra de messias salvadores, tem da situação da política europeia e mundial um olhar igualmente, atento e está consciente de que as receitas da economia de mercado (des) regulada pelos defensores e principais beneficiários das leis do neo-liberalismo, para Portugal, são um enorme problema e não a solução, o dia 22 de Janeiro (ontem) foi um dia que acabou muito triste, porque, por um fio, nos fugiu a solução Alegre. E mais de que para alguns de nós, para muito do povo, que manipulado, por uma informação domesticada pelos grandes interesses, falta que muito contribuiu para a construção deste resultado; este, sendo de facto, um dia triste e de atraso, no caminho do progresso.

Claro que a esquerda ou alguma desta, que de esquerda (mesmo centrista) vai tendo cada vez menos, se pôs bem ao jeito da pancada que levou. Tirando Manuel Alegre e de alguma maneira Jerónimo de Sousa (que apesar dos erros, de marcação do território e de defesa “Capela”, por vezes, acima dos interesses em derrotar o “inimigo” principal, soube, todavia seriamente identificá-lo), a restante esquerda forneceu à direita muitos dos trunfos de que ela necessitava para (por uma “unha negra”) vencer as presidenciais. Foi de facto assim com o PS, que seguiu a estratégia maquiavélica de Sócrates (um direitista a quem o aparelho do PS, há tempos, ofereceu a liderança), uma estratégia, que muito provavelmente, se destinou a tentar apagar ou a reduzir o efeito Alegre e, simultaneamente, expondo-o, “sem rede”, tentar sacudir do PS, Soares e o seu Clã, aceitando, como mal menor, a eleição de Cavaco. A não ser assim, não se consegue entender tanto erro junto, que um homem frio e calculista, mas não por isso menos inteligente, como Sócrates, tivesse, por atacado, cometido. E tão longe foi o maquiavelismo do líder do PS e dos seus principais “ajudantes”, que na própria noite eleitoral, quando Manuel Alegre (o derrotado mais vitorioso) proferia a sua oficial declaração, Sócrates, sabendo que a comunicação social esperava, também, com alguma ansiedade, pela sua reacção, aos resultados eleitorais, no mínimo descortezmente, começa a falar para o interromper na declaração projectada pelas televisões, talvez para o tentar ir apagando da memória do povo e para se vingar da “desobediência” do seu, ainda, companheiro de partido, deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Atitudes destas, por tão baixas, revelam gente que não presta e que não está à altura dos altos cargos que ocupa, na chefia do partido e, sobretudo, do Estado. Mas como diz o dito “Deus é grande e Alá é maior “ e o povo Português percebeu perfeitamente o “golpe” e não acreditou em desculpas esfarrapadas dos actuais “Donos” do PS, como também sabe que Soares (um homem, que apesar de tudo me merece respeito) foi por ambição e não saber estar quieto, uma vítima de uma estratégia maquiavélica e de algum modo autofágica. Sócrates é ao seu próprio estilo uma espécie de Cavaco, que como Cadilhe bem definiu, “É como os Eucaliptos que secam tudo à sua volta”, tirando os bajuladores e servis oportunistas, que à sua sombra “comem” ou esperam “comer”. Salazar também era assim. Sempre que surgia um “sombra” utilizava todos os meios para o abater.

Quanto à candidatura de Louçã, não obstante algumas boas e muito boas “Farpas”, no combate e no desmascaramento de Cavaco, “gritou” demasiado alto e por, também, demasiado tempo, que Alegre era igual a Soares, uma espécie também de instrumento ao serviço da impopular política socialoide, de Sócrates, de quem não se demarcava suficientemente. E, mais grave do que tudo o resto, proclamando ser Soares o melhor posicionado para a 2ª volta, ao contrário de quase todas as sondagens e expectativas (que quase a olho nú se viam estar certas), o que para além de ser uma falsidade e uma hipocresia, de algum modo ia anulando as hipóteses de Alegre ter uma votação superior à que teve e penetrar mais no eleitorado, que, por alguma falta de esclarecimento, hesitava entre Cavaco e Alegre, bem como entre Soares e Alegre.

Isto teve, certamente, como principal consequência, mais votos para Cavaco, para os Brancos ou Nulos e, sobretudo, para a abstenção (com muito poucos proventos próprios para si, Francisco Louçã, como a baixa de votação bem evidencia).

Na Esquerda, Manuel Alegre superou-se a si próprio. O excelente resultado (além das mais favoráveis previsões), conquistado contra tudo e contra todos foi notável. Fez uma campanha, em crescendo, bem gerida, transparente e genuína, de uma Esquerda, que quer bem fazer uma correcta simbiose, entre o passado, o presente e o futuro, para nele se projectar mais eficaz e solidamente (não hipotecando utopias e sonhos, não cedendo ao falso pragmatismo, erigido em nome de “valores” que de Esquerda nunca foram, nem serão).

Manuel Alegre foi uma Esquerda com memória, mas simultaneamente com futuro, porque inovadora na crítica e na auto-crítica, a uma falsa ou passadista Esquerda. Manuel Alegre e os seus principais estrategas souberam retomar e recriar (aplicando-o a estes tempos) o discurso de aprofundamento da democracia a participativa) de Pintasilgo, dando-lhes, simultaneamente, uma vertente maior de cidadania, bem como uma memória, mais marcada, de uma Esquerda, digamos mais moral, com história, princípios e valores. E aí está para o que der e vier um novo discurso que proclama bem alto que os partidos políticos não esgotam a democracia, que no seio destes há afunilamento democrático (com estatutos, digo eu, no mínimo pouco democráticos, para impedir no seu seio a discusão política, o exercício de uma salutar democracia de funcionamento, deixando que o aparelho se instale e a triture). Remato esta parte, digamos, em forma de balanço de uma campanha, com uma máxima, um dito, que um amigo me disse (com graça), que começa a fazer caminho, entre os socialistas e que, sentenciosamente, afirma:

- O Sócrates ganhou, mas nós perdemos”!…

Perdemos todos, para a direita e para o aparelho PS, que apostou na derrota e talvez, também (sem o que querer) no seu próprio suicídio. Oxalá a Esquerda, que nestas eleições se afirmou e de certo modo se salvou da hecatombe, mais visível, saiba “apanhar os cacos” e com muita “Alegria” ou como diz o nosso poeta, se transforme na tal candeia que “na noite mais escura, em tempos de servidão” alumia esta desgraça e, finalmente, resiste e (às Direitas) sabe dizer não.

Caldas da Rainha é uma cidade bem ao meio do País e no litoral deste, “Jardim florido, à beira-mar plantado”. É a cidade onde vivo e o dia primeiro, do “Cavaquistão Socrático”, foi frio e cinzento. Aliás o Sol (como metáfora) anda arredio, das Caldas. O mega Centro Comercial que querem fazer no degragado mas saudoso “ Lisbonense” (belo e antigo Hotel com muita beleza e história), bem como as grandes superfícies (Hiper-mercados) que se preparam para trazer para Caldas (que me parece já ter disto que baste), para além da continuada descaracterização da cidade, vão matar, certamente, o “centro comercial a céu aberto”, que a zona histórica da cidade, em grande parte é; que emprega muita gente e que traz ainda a Caldas muitos visitantes e dinheiro. A falta de estratégia e a cedência criminosa aos grandes interesses estão a pouco e pouco a matar e a descaracterizar o que era bom, útil e belo.

A cerâmica, como indústria, nasCaldas, dia-a-dia vai morrendo e a que resiste, está moribunda.

O desemprego era, em Caldas, no final do ano passado, de 2.400 desempregados (hoje deve ser bem maior).

A clientela da “sopa dos pobres” (passe a ironia que não quer desrespeitar a tragédia humana) cresce, também, dia-a-dia.

Para nenhum destes flagelos a Câmara Municipal apresenta soluções, nem que seja na tentativa de minorar a miséria e a tragédia, que por força de políticas erradas e de circunstâncias adversas proliferam, nestes tempos de incerteza.

Aliás em resposta a uma interpelação minha na Assembleia Municipal o Sr. Presidente da Câmara foi perentório:

- Para o desemprego da indústria cerâmica não há solução nem municipal nem governamental (sugeri certames para publicitar, no país a cidade, e o seu comércio e indústrias tradicionais, na pergunta que lhe dirigi, mas não obtive resposta);

- Quanto ao meu apelo para uma solução mais mais exigente, por parte do Município, para a “sopa dos pobres”, para a qual o Município só dá instalações, sendo a “Associação do Sr. Joaquim”, que dá tudo o resto, a resposta foi surpreendente:

O Sr.Presidente defendeu o fecho daquele serviço à pobreza, justificando-o com a vinda de muitos indigentes, de fora de Caldas e que, em nome de uma certa “limpeza” da urbe (não disse assim, mas era esse o espírito do discurso). A Câmara (que é como quem diz, ele, que de certo modo por si só a é) devia decretar o seu encerramento. O que em tempos de crise social grave, são uma “solução” e uma conversa no mínimo originais.

Salvaguardadas as devidas proporções e muito menos não pretendendo fazer paralelismo puro, recordo que Hitler, tal como para com os judeus, propôs a “solução final”, também, para os ciganos (povo considerado indigente). Isto está tudo ligado, cabendo perguntar:

- Que tempo estranho é este que habita o País e, sobretudo algumas cabeças coroadas, deste Socrático Cavaquistão?!…

Caldas da Rainha, 23/01/2006

(Fernando Rocha)

P.S. Sendo que para as Caldas o “progresso” é o que se vê (meio tecnocrático, meio pacóvio) e sendo o seu superior defensor e executante o Sr. Presidente da Câmara, um conhecido e entusiástico apoiante do futuro Presidente Cavaco, será que ao País, este, no seu magistério de influência (talvez de pressão), propugne por uma receita análoga?

Houve um grande escândalo nas hostes do PSD por a jovem deputada do PS (de seu nome Catarina) na Assembleia Municipal ter falado de “parolismo”, a propósito da moda de frequentar os centros comerciais. Quero nestas linhas registar e assumir que estou inteiramente de acordo. Tanto mais que na nossa terra se mata a beleza e riqueza do nosso comércio tradicional, se despreza o Parque – coisas únicas, que são “jóias da coroa” caldense.

Ocorre-me perguntar, ainda, que razões a nossa razão desconhece, estarão subjacentes a esta política suicidária, para a nossa urbe?

Quero daqui também registar que me incomodou uma certa subserviência ao “chefe”, às suas razões e ditames, da parte de alguns caldenses, sentados nas bancadas do PSD (que tendo alguns destes criticado na Assembleia Municipal, inédita, daquele domingo triste para a cidade) que não tenham tido a coragem de votar contra. Desculpem esta crueza mas não me conformo com uma decisão à pressão e tomada “em cima do joelho”, de que pode depender o futuro da nossa cidade, a sua descaracterização, mais desemprego a somar à elevada taxa já existente, para além de mais falências (oxalá me engane)!…

Onde é que estão os estudos minimamente sérios de impacto aos mais vários níveis da construção do Mega Centro Comercial, no “Lisbonense” (ao nível do tráfego, das linhas de água, da proximidade da Misericórdia e dos seus utentes, das cargas e descargas, no Parque, etc., etc.)?

Só para a morte não há solução. Mas para o suicídio há. Não estaremos próximos de um acto leviano e suicidário para a cidade, tal como a conhecemos e sonhámos?

Uma coisa vos direi. Enquanto puder e a saúde mo permitir resistirei a tudo o que não entenda e que presumo ser negativo para Caldas.

Como apoiante e dinamizador da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República, para que se antevê o prosseguimento de acções cívicas, do foro da democracia participativa, procurarei juntar vontades de Caldenses e resistir e quiçá passar à ofensiva, na luta pelo meu País e, por maioria de razão, também, pela minha terra, a que dedico um amor que não tem limite.

Adicionar comentário 9 Março 2006

Poesia é


Poesia é

É um estado d’alma

Que acontece

É a música da palavra,

É a beleza da frase!

6 de Dezembro de 1970

Adicionar comentário 6 Março 2006

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