Entradas de 'Dossier Funcionalismo Púb./Ex-Combatentes'

GUERRA DE ANGOLA “VENCEREI” (B.C. 2910) /Vale do Loge, Toto e Faz. Tentativa – Texto XVII

Naqueles primeiros tempos, em Angola, mais do que a guerra propriamente dita, o que mais nos aborrecia era estarmos para ali, longe de todo o nosso mundo.  Eu sentia, por outro lado, uma enorme dificuldade em me adaptar àquele clima tórrido, inclemente.  Outra coisa que muito me custava era nas tardes, na altura de maior caloraça, ter de estar na secretaria de operações e informações, onde trabalhava.  De resto ali, no Comando de Batalhão, na Companhia de Comando e Serviços (CCS), naqueles primeiros tempos (meados de 1970)   pela guerra, verdadeiramente, na sua dimensão mais cruel, pouco se dava.   O que verdadeiramente nos incomodava era estarmos ali, com muito poucas condições, condenados, a um degredo, que sabíamos só poderia ter fim passados dois longos anos.   Todavia, esse clima de paz podre era mais aparente do que real.  Por volta de Junho ou Julho de 1970 uma coluna da CCS foi atacada, embora só se tivesse registado um ferido ligeiro. O pior estava, porém, para vir.

Houve, depois, um terrível ataque que as nossas tropas sofreram,  no dia 4 de Agosto, desse já longínquo ano de 1970.  Esse ataque, feito pelos guerrilheiros, a um nosso grupo de combate,  da Companhia do Locunga, que estava agregada ao nosso Batalhão, saldou-se numa autêntica carnificina.  Recordo-me do enorme trauma que todos tivemos, poucas horas depois da notícia,  quando uma camionete berlier veio, a uma casa (armazém) do nosso Colonato do Vale do Loge,  levantar os caixões para os mortos, em resultado dessa emboscada.  Tratava-se de uma Companhia constituída sobretudo por militares angolanos e em Angola formada.   Se a memória me não falha e se um amigo com quem recentemente abordei esta tragédia, estamos certos, as nossas tropas,  que nesse Grupo de Combate,  eram no total 29 homens, tiveram, nessa emboscada, 11 mortos, 8 feridos muito graves e um desaparecido.   De entre os mortos contava-se o Alferes Comandante do Grupo.

Dias depois na Secção de Operações e Informações procurava-se escalpelizar aquela acção, em que os guerrilheiros tinham tido aquele enorme êxito, sobre o nosso Exército. Falava-se, entre outras coisas, que aquela emboscada só poderia ter sido obra do conhecido guerrilheiro, Pedro Afamado, um lendário Comandante da UPA/FNLA.  Dele se dizia ser um grande estratega militar.  Um comandante da guerrilha, que com escassos meios, em homens e material de guerra, volta na volta, causava enormes “estragos” nas nossas tropas.

Hoje vários conhecedores dessa situação (entre eles, ao que parece, antigos militantes dos Movimentos de Libertação) afirmam que nesse ano, de 1970, já o lendário Pedro Afamado era um homem velho e doente.  Quero, todavia, acreditar que o comandante, ainda que não com efectivas funções operacionais, era ele.  Era pelo menos em seu nome que eram deixadas, para as nossas tropas, mensagens (avisos à navegação, como um que ainda há dias um amigo desses tempos e dessas circunstâncias me recordou, sobre a tentativa de nos impedir a construção da picada que atravessava a Mata do Luaia, que a nossa engenharia militar levava a cabo).

Mas voltando àquela fatídica emboscada – que, aliás, repetia quase exactamente, em termos táctico-estratégicos, uma outra feita ao Batalhão que nos antecedeu (também com elevadíssimo número de mortos e feridos) cerca de um ano antes – o local para a mesma escolhido foi uma célebre curva,  na picada, denominada curva em bico de pato e consistiu, no concreto,  em nessa curva e  aproveitando uma pequena elevação num dos terrenos laterais à picada (com uma excelente visibilidade sobre um grande troço da estrada), instalar uma metralhadora de tripé (camuflada com a vegetação), que foi disparada,  desse sítio;  e que “varria”, com balas, a maioria das viaturas (unimogs) que estavam, como que encurraladas,  dentro desse curvilíneo troço de picada    (aliás, havia instruções, muito claras, às nossas tropas, para que, numa coluna de viaturas, se guardasse uma determinada distância, entre cada carro, para evitarmos, em caso de emboscada, que a coluna caísse, toda, na zona de flagelação ou zona de morte).

Depois dessa acção de fogo, que matava ou feria muitos dos nossos soldados, os que puderam, como é lógico, saltaram das viaturas alvejadas, para melhor se defenderem e, então,  guerrilheiros previamente  emboscados, nas zonas laterais da picada, armados sobretudo com catanas (espécie de facalhões tipicamente africanos) caíram em cima dos nossos militares, com uma imensa e intimidativa algazarra, concluindo assim a carnificina.  Claro que a acção foi de uma enorme crueldade, mas há que reconhecer que guerra é guerra e nesta ou se mata ou se morre.    Mais do que se condenarem os guerrilheiros e a sua ferocidade, há que condenar o regime salazarista, que se recusava, sistematicamente, em negociar uma solução para um conflito, que levava-mos a cabo, contra a opinião de quase todo o mundo de então, incluindo a própria Igreja Católica, na figura do seu Chefe máximo, de então, o Papa Paulo VI.

Fernando Rocha

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GUERRA DE ANGOLA “VENCEREI” (B.C. 2910) / Vale do Loge, Toto e Faz. Tentativa – Texto XVI

Três notícias recebidas  e um acontecimento (no Loge ocorrido)  marcaram os meus primeiros tempos de Angola, no Vale do Loge.  Todos, cada um à sua maneira,  me provocaram uma enorme angústia.   O primeiro foi a notícia da morte do meu avô Augusto, pai de meu pai, que morreu de velho,  aos 94 anos,  mas que sendo uma pessoa muito especial, me abalou bastante.  O segundo foi, igualmente, uma morte, a morte de minha avó, mãe de minha mãe.

É difícil imaginar,  para quem não viveu esta experiência de ser obrigado a estar muito distante do seu país e dos familiares, ainda por cima por força de uma obrigação militar que se não desejava ter, perceber a enorme angústia que se tem, na circunstância de uma morte de uma pessoa que nos é querida.   É como que uma dor dupla.  A dor do desaparecimento da pessoa de quem se gosta e a outra dor, que se mistura com um sentimento de  revolta, por se estar impossibilitado de uma despedida.

O outro acontecimento foi a morte física do ditador Salazar, já que a sua morte política se tinha dado a quando a queda da célebre cadeira, acidente que o deixou meio tã tã,   o que foi uma bem-aventurança para o País, havendo até quem propusesse uma estátua ao carpinteiro, que fizera a famosa cadeira de praia  (já que nesse tempo, essas cadeiras, eram todas de madeira ou metálicas e não de plástico como,  em regra geral, agora são).   Isto embora Salazar nunca tivesse sabido que deixara de ser Presidente do Conselho de Ministros;  passando-se a célebre comédia de os Ministros irem visitá-lo e fingirem que despachavam com ele, as importantes questões de Estado;    estando, como todos sabemos já, Marcelo Caetano em funções.   Ocorre-me a este propósito recordar uma entrevista do meu conterrâneo caldense, Venâncio Paulo Rodrigues,  Secretário de Estado da Presidência, que era tão caninamente fiel ao tirano Salazar, que declarou numa entrevista, que se sentia uma simples esferográfica, “nas mãos do de Sua Exª. o Senhor Presidente do Conselho”.

Eu, apesar de saber que a morte do ex-ditador já pouco ou nada alterava, na situação política nacional, gostaria de ter estado em Portugal, por essa altura e se católico fosse, diria “que Deus me perdoe”, pois ansiava há anos por esse dia da morte do tirano,  querendo, estando “exilado” na guerra, ter sentido, ao vivo, as repercussões do acontecimento, no País e no povo.  Salazar, o pirata, até isso me roubou !…

O outro acontecimento, muito traumático, foi uma emboscada a uma companhia agregada ao nosso batalhão, em que tivemos dezassete ou dezanove baixas  (entre mortos e feridos graves) de militares portugueses e de que falarei mais tarde.

Mas voltando à morte de meus avós, quero fazer-lhes aqui referência (posso não voltar a ter oportunidade de o fazer), porque ambos foram pessoas que muito contribuíram para a minha formação como homem e de quem herdei alguns traços de carácter.

Minha avó materna, Júlia da Conceição Caldeira, era uma velha professora primária reformada, que já nessa situação e depois de ter tido uma trombose,  que lhe deixou bastantes sequelas, me ensinou, com uma enorme paciência e muito amor, as primeiras letras.  Recordo-me que ela me comprara cadernos de duas linhas para eu acertar a caligrafia (teria eu para aí cinco ou seis anos) e que eu, de vez em quando, com o lápis, fazia como que montes, que saiam do espaço das duas linhas, e escrevia algumas letras, como que no cimo de uma montanha.   Ela, que era imensamente nervosa e que em tal estado não era boa de assoar, por amor ao netinho, que era eu, com tudo isso condescendia.

Recordo-me, ainda, com uma ponta de angústia, que guardo desse triste dia, de me ir despedir de minha avó, nas Caldas,  onde ela morava, já que eu estava em Lisboa por essa altura, antes da minha partida para Angola e minha avó Júlia me dizer, com as lágrimas nos olhos,  que me não veria mais;  e eu, também, muito angustiado, para além do beijo, não ter sabido que lhe responder.

Por seu lado, meu avô paterno, Augusto Rocha, era uma figura de velho extraordinária. Falar dele, em poucas linhas é uma tarefa extremamente difícil, dada a riqueza da personagem.  Reformado como primeiro sargento do exército, bastante novo ainda, pois tinha cinquenta e dois anos,  quando tal ocorreu, não deixara de ter, como militar, uma vida extremamente activa.   Era,  como meu pai, primeiro sargento artífice (uma especialidade no exército), mas fizera uma comissão de serviço em Moçambique e combatera na Primeira Guerra Mundial, em França, integrado no Corpo Expedicionário Português.   Era dotado de uma inteligência e de uma habilidade, de mãos, invulgares, bem como de um sentido de humor, muito apurado e dado a brincadeiras muito curiosas e interessantes, que atestavam a sua  extrovertida e folgazona personalidade.

Tinha, também, como característica, que eu considero muito engraçada, a prática do pequeno delito.  Recordo-me, por exemplo, que era um reformado,  como quase todos os outros,  de parcos recursos,  já que como se aposentara muito novo e o Salazar e o seu regime iam, sistematicamente, não actualizando as suas pensões, estas se iam depreciando, chegando, no caso de meu avô,  a ser menos de metade do ordenado de meu pai, da mesmíssima categoria.   Para meu avô, todavia, com o seu sentido vivo e folgazão isso não o impedia de tirar da vida partido e até dizia, por volta do início dos anos sessenta,  do século passado, que se vingava do Salazar ( que o castigava com uma reforma de miséria) vivendo bastante mais do que seria suposto e, consequentemente, obrigando o ditador a pagar-lhe, mais anos de reforma do que aqueles que estivera no activo.

Mas a propósito dos pequenos delitos, o meu avô, na sua extrema, mas compreensível sovinice (quase tão grande como a do meu amigo Manuel Gil), não comprava um jornal, mas gostando de os ler, entrava por uma porta da esplanada do Parque das Caldas  de mãos a abanar, mas quando saía, por outra, várias vezes já levava debaixo do braço um jornal, que estava abandonado numa mesa.

Outra das cenas, com que eu, diga-se, ao tempo, “engalhinava”, era a de ir à Igreja sacar os cotos das velas das promessas, quer para se alumiar, quando faltava a luz ( e nas Caldas por esse tempo tal era por demais frequente, dizendo-se até de Caldas:  ” Caldas da Rainha terra onde  não veio Jesus; de dia não há água e à noite não há luz !”),   quer para fazer as suas experiências ( por exemplo pequenos “canhangulos” ou canhões miniatura rudimentares, que tendo como explosivo cabeças de fósforo, disparavam pauzinhos),  deliciando-se a fazer as suas demonstrações, das muitas e variadas engenhocas,  feitas com sucata, a mim e aos meu amigos, ainda meninos ou jovens    (uma pistola de mola de fino aço, uma bailarina que se movia pela força de um elástico, um engenho para pescar,  agarrando, pequenos objectos que caíam no telhado, por baixo do seu quarto, no segundo andar da casa,  da Rua dos Artistas, a cujo nome ele fazia jus, etc., etc.) .

Outra cena com que ele se deliciava era fazer orais cumprimentos da janela de casa, cheios de mesuras, a supostos passantes, para nos espicaçar a curiosidade de irmos verificar a veracidade da dita encenação.  Também fazia partidas inofensivas aos animais. Uma delas era a de meter por baixo do tapete onde o gato se costumava deitar um ferro eléctrico de soldar ligado à corrente, no inverno.  O gato de princípio gostava e até adormecia, com o calorzinho, mas de repente acordava espavorido, saltando e soltando um grande miau, pois estava-se queimando; e então o meu avô ria-se a bom rir, como que dizendo, para o gato: Gostas do calorzinho, gostas ?! Pois é, mas não há bela sem senão.

Esta descrição sobre o meu avô já vai longa, mas não resisto em contar uma outra sua aventura. De uma vez vendo que a rapariga, a nossa empregada doméstica, fora tomar banho, o meu avô, aproveitando-se de a porta da casa de banho ser de bandeira, de vidro transparente, empoleirou-se num banco para espreitar a rapariga nua.   Esta,  por sua vez, descobriu a maroteira do mirone,  deu um enorme grito e fez queixa a meus pais.  O meu pai, que era seu filho, ralhou-lhe muito (a ele seu pai, invertendo-se os papeis) e então ele, não se querendo deixar apanhar, na culpa,  pela sua própria tramoia, desculpou-se que tinha lá estado antes e que estava a ver da aliança,  de que lá se esquecera,  lá estava;  e dessa desculpa não saiu, jamais admitindo a sua erótica devassa.

Era assim o meu avô Augusto, que fora as brincadeiras e travessuras, tinha um coração de ouro, recordando-o com uma imensa saudade e lamentando não me ter podido despedir dele  ( exilado que estava em África), a quando da sua partida para as paragens do desconhecido ou para o nosso irremediável fim, seguindo as convicções do ateísmo.

As notícias de Portugal e mais particularmente da família, chegavam-me através dos célebres aerogramas, que eram umas folhas azuis ou amarelas de papel, que dobradas,  conforme os seus traços, previamente neles inscritos, se transformavam em cartas,  que nos eram enviados por via aérea, mas que por vezes se atrasavam;   entre outras razões, porque tanto os que nós recebíamos, como os que enviávamos à família e aos amigos, eram, em certas circunstâncias e para certas pessoas ou aleatoriamente,  alvo de devassa pela censura  ou pela PIDE.  Foi por aerograma que soube da morte de meus avós, notícias que não partilhei com ninguém e que guardei na parte mais íntima de mim próprio, com uma imensa amargura.

Meus pais,  até porque minha mãe estava a chefiar a Estação dos CTT do Restelo, em Lisboa, mandavam-me com alguma frequência pequenas encomendas, muitas de doce de tomate (feito por ela), que a minha mãe sabia que eu muito apreciava ou de uva.  Eu, para suprir as más condições da comida do rancho, barrava bocados de casqueiro (pão) com doce e acompanhava essa iguaria, com as minhas preferidas latas de leite “Atlas”, que comprava na cantina e, assim,  lá “matava a galga”.     Meu pai, por seu lado, juntava os jornais do desaparecido e saudoso “Diário de Lisboa”, que era o meu jornal e remetia-mos por barco.  E mesmo chegando bastantes dias (quase um mês) depois, tinham para mim o especial sabor de notícias frescas, de um jornal, que tinha a marca de ser,  ao regime,  oposicionista  e que,  embora visado pela censura, nos deixava perceber, nas entrelinhas, por meias palavras, muita coisa.

Fernando Rocha

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GUERRA DE ANGOLA “VENCEREI” (B. C. 2910) / Vale do Loge, Toto e Faz. Tentativa – Texto XV

Mencionei já,  no texto anterior,  o Comandante, Tenente-coronel (Coronel no final da comissão) Antunes de Sá e desejava começar este texto fazendo-lhe referência.  A malta chamava-lhe o muleta negra, porque ele tinha o hábito de andar muitas vezes apenas com uma camisola de algodão de, de meia manga, negra. Era um homem muito marcado por várias comissões, nos vários conflitos da guerra colonial portuguesa.    O seu carácter irascível e imprevisível fazia com que dele, mais do que respeito, tivéssemos medo.   De uma vez deu uma enorme tareia ao Quicas, um pobre e franzino  cabo de transmissões, que de forma fortuita dera um tiro com a sua G-3 (a espingarda automática que nos estava distribuída) .  Como muitos oficiais do exército, o Coronel bebia imenso.  Aliás, quase toda a gente, na guerra, bebia em excesso.  Era essa uma das formas de sublimar o medo, a contrariedade, que no ser humano, uma guerra sempre causa e em muitos casos concretos e naquele nosso, em particular, sublimar, também, o grande isolamento em que estávamos.

Vivíamos num ambiente tão fechado,  restrito e isolado,  que, por vezes, desejávamos que algo ocorresse, nem que fossem os tiros do inimigo.  Eu por exemplo, que não tenho vocação para herói, muito menos naquelas circunstâncias, de absoluta contrariedade,  por ser obrigado a uma guerra, para a qual,  já na altura, não via sentido, aproveitava as festas de que era um dos principais animadores, dizendo poesia,  criando e participando em rábulas, para sair, em digressão, pelas diversas companhias do Batalhão, arriscando, sem necessidade, cair numa emboscada, feita pelos guerrilheiros.

Foi assim que conheci Quimaria, para lá ou no meio da Mata do Luaia (já não sei bem), onde estava sediada a Companhia de Caçadores 2694,  comandada pelo então Capitão Silvério (hoje General) e onde estava o meu conterrâneo caldense e amigo,  Alferes Calheiros Viegas  (filho de um popularíssimo conhecido advogado caldense, que era também um grande desportista, particularmente de ténis de mesa e de ténis em campo).

Essa viagem para Quimaria ficou para todo o sempre gravada na minha memória, por, numa parte significativa do percurso, a picada (estrada) ter sido aberta em atravessamento de uma densa mata, pelas máquinas da engenharia militar, mas passado pouco tempo a força da vegetação, por cima da picada, voltava a fechar-se formando uma espécie de túnel, por onde tínhamos de passar.  Muitos quicos (bonés militares de pano) lá devem ter ficado, arrancados por um qualquer ramo mais espigado. Recordo-me que, viajando na caixa de uma berlier (um camioneta militar) tirei o quico,  para não ficar sem ele e tapei a cabeça, como pude com as mãos.  Mesmo assim fiquei com a cabeça arranhada, para além das mãos. Naquele sítio se os guerrilheiros nos quisessem apanhar, apanhavam-nos à mão, com a maior das facilidades.

Enquanto que a guerra, no Leste de Angola, se caracterizava por ser, sobretudo, uma guerra de minas, feita pelo MPLA (partido independentista angolano, ainda hoje no poder em Angola), a guerra no Norte de Angola, travada contra os portugueses, pela UPA/FNLA, do Holden Roberto, era uma guerra de emboscadas. Quando foi essa minha inesquecível ida aventurosa,  a Quimaria, já não estávamos no Vale do Loge, mas sim no Toto, onde inicialmente era um Comando de Sector, chefiado por um Brigadeiro.  Se bem me recordo, o Comandante Antunes de Sá passou a ser comandante de um criado Sub-sector, comandando outras Companhias, que não tinham vindo connosco da metrópole, no navio Niassa;   sendo  algumas delas formadas em Angola e constituídas por muitos nativos e brancos de segunda (como, por xenofobia, eram conhecidos os brancos de Angola ou lá radicados). Uma dessas Companhias era a da localidade de Locunga, tendo uma sua coluna militar sido tragicamente emboscada, como mais adiante terei ocasião de contar.

Fernando Rocha

Adicionar comentário 2 Agosto 2010

GUERRA DE ANGOLA “VENCEREI” (B.C. 2910) / Vale do Loge, Toto e Faz. Tentativa – Texto XIV

A localidade do Vale do Loge ou mais propriamente o Colonato do Vale do Loge,  era uma localidade quase abandonada, pela população, no Norte de Angola, porque, nos primeiros anos da guerra colonial,  toda aquela zona havia sido fustigada pela guerrilha e colonos propriamente ditos, em 1970 (ano da minha ida para lá),  restavam muito poucos.   Havia, se bem me lembro umas poucas famílias, para além do Administrador ou Chefe de Posto (a autoridade civil), que era um sujeito cabo-verdiano  e o comerciante, também chamado de civil, que comerciava de tudo um pouco.  De resto, como disse, havia poucos civis, recordando-me dum, em particular, que vivia numa casa do colonato, casado ou junto com uma negra e que tinha desta uma ranchada de filhos.  Recordo-me, também, do Major Bandorga   (meu Chefe máximo,  na minha Secção de Operações e Informações, para onde, como cabo escriturário,  fui destacado)  comentar, que esse civil, que apareceu uma vez para tratar de um qualquer assunto, com o Major, já ter ganhado o jeito de cumprimentar dos negros, que não paravam de fazer vénias, perante uma personagem branca de categoria superior, como era o caso.

Como a maior parte do casario do colonato havia sido abandonado, pela população branca, eram essas mesmas casas que nos serviam de habitação.  Eram umas pequenas e modestas casinhas,  quase ao jeito de pequenas vivendas,  separadas entre si,  por terrenos em redor.  A mim coube-me a casa dos escriturários, que,  como o nome indica, era habitada por todos os escribas do aquartelamento.  Nos terrenos em redor erguiam-se umas esguias árvores, chamadas de mamoeiros e que davam um fruto de aspecto e sabor entre o melão e a abóbora, que, há falta de melhor, de vez em quando, nos passava pelo estreito, já que a comida e sobretudo a fruta das refeições do rancho, deixavam bastante a desejar.  Recordo-me,  igualmente,  que nós  (escriturários) tinha-mos uma máxima, que era a de que,  porco ou galinha (ou outro qualquer animal comestível),  que invadisse a nossa propriedade,  tinha ordem de sumária execução e como destino último o tacho. Penso que, para desdita dos nossos estômagos, ou por haver escassos infractores ou por falta de coragem para aplicar a sentença, com medo de punição pelas chefias militares, nunca a “lei” de execução sumária foi aplicada, para infelicidade das nossas papilas gustativas.

Éramos (os escriturários) um grupo bastante unido e amigo, que havíamos herdado,  do Batalhão que rendemos, um lindo casal de cães,  o Duque e a Bonequinha, que a esposa do Tenente Chefe da Secretaria do Batalhão, que acompanhara o marido naquela aventura e que era uma senhora madeirense, tal como o marido (o Tenente Freitas) chamava com o seu cerrado sotaque, da Ilha do actual Soba Alberto João Jardim, “bonecanha”.

A propósito da Secretaria do Comando de Batalhão, às ordens superiores do Comandante de Batalhão  (Tenente-Coronel Adelino Antunes de Sá), havia na dita Secretaria um segundo Chefe,  que era o Primeiro Sargento J. Castro, uma figura entre o burlesco e o castiço, a que nós, rapaziada,  déramos a alcunha de J. Calvo.

De uma vez que o Tenente não estava e que quem comandava as operações, na Secretaria, era o 1º. sargento (que antes de ser amanuense tivera, ao que parece, a especialidade de ferrador, na cavalaria militar) este, deu ordens terminantes ao 1º. Cabo escriturário Assunção, que dactilografava um rascunho,  para o Comandante,  para retirar do texto todas as vírgulas, com a alegação meia petulante de que estas (de acordo com os modernos tratadistas gramáticos) se haviam deixado de usar.   O Assunção bem recalcitrou, mas de nada lhe valeu, pois o J. Castro, estava intransigente.  Por fim, acabado de dactilografar o texto,  coube ao Assunção, cheio de medo (que o Comandante nada meigo era e andava geralmente meio atravessado com os whiskies),  levar o dito ao Comandante,  para que este o assinasse.  O Coronel começando a ler o texto e reparando que não havia no escrito vírgulas, começou a chamar besta ao meu colega Cabo e já se ensaiava para lhe dar um estaladão, ao que o  1º. Cabo escriba, que era muito nervoso e um pouco gago,   respondeu, a tempo de evitar o pior, dizendo  não ter culpa, pois eram ordens do Sargento.

Em resultado disso o J. Castro foi chamado ao gabinete do Coronel, ouvindo uma violenta reprimenda,  que só não deve ter ido mais longe por o sargento ser velho demais para levar uns sopapos.  A  partir daí era um fartote de rir ver o J. Castro, quando ia para Secretaria e tinha que passar pelo edifício principal,  do Comando, que ficava em caminho e onde o Coronel tinha o gabinete, a andar ligeiro ou a emboscar-se,  para não se cruzar com o Comandante.  Isto porque o Vale do Loge era uma localidade muito espalhada, quase toda ocupada pela tropa e o conjunto dos toscos edifícios do Comando de Batalhão distarem um pouco do grosso do Colonato, propriamente dito, onde o pessoal habitava.

À parte desta história pícara (no seu sentido burlesco, desta figura do J. Castro)  e outras que procurarei contar, a coisa não era pera doce.  A alimentação,  que não era “grande espingarda”  e o  clima forte,  deitaram abaixo, com paludismo, muitos de nós, embora eu dessa vez me tenha safo e, em resultado disso, para além do trabalho, que era bastante, na minha secretaria,  de Operações e Informações,  às ordens superiores do Major Bandorga (Argemiro Carretas Bandorga), tocou-me ter de alinhar muitíssimas vezes,  mais do que o habitual, para fazer reforço (guarda) ou cabo-dia, em substituição do imenso pessoal que estava de baixa, doente com o paludismo ou malária.

Fernando Rocha

1 comentário 2 Agosto 2010

GUERRA DE ANGOLA “VENCEREI” (B.C. 2910) / Vale do Loge, Toto e Faz. Tentativa – Texto XIII

Depois de ter permanecido alguns dias em Luanda, como disse por indicação do Capitão Camilo, na ajuda à tarefa de levar coisas necessárias para o Batalhão, parti para aquele que seria o meu destino,  por cerca de seis meses,  no Norte de Angola,   mais propriamente no Colonato do Vale do Loge.   A viagem que fiz para esse primeiro destino,  da minha campanha, em Angola,  foi feita integrando um chamado MVL, que era nem mais nem menos do que um comboio de viaturas civis, que juntas se deslocavam (geralmente camiões),  para levarem géneros alimentícios e mercadorias diversas, para as povoações do interior Angolano e que eram escoltadas por viaturas militares, para efeitos de protecção de um eventual ataque dos guerrilheiros.  Era um relativamente grande comboio de viaturas, tendo-me cabido a mim, porque não pertencia a qualquer unidade militar específica de protecção da coluna, fazer escolta  individual a um camionista, ocupando o lugar ao seu lado,  de arma engatilhada, preparada para o que desse e viesse.

Nos primeiros quilómetros da viagem, ainda nas cercanias de Luanda, a estrada era asfaltada e dava a ideia de não podermos ser surpreendidos por nenhum ataque.  Mas tenho a ideia que a partir de cerca de uns cinquenta quilómetros de Luanda a estrada alcatroada deu lugar à vulgar picada, de areia batida, que para além de ter um piso muito mais irregular, que se tornava muito mais incómodo, porque cheio de buracos, nos obrigava a colocar um lenço tapando a boca e o nariz, para os proteger do imenso pó que se soltava do rodado da viatura que nos antecedia. Era um pó fino muito enervante, que dava a sensação de nos penetrar até aos ossos.

Tenho a ideia de que a viagem,  em marcha relativamente lenta, como tinha de ser,  para que as viaturas mantivessem as distâncias aconselháveis,  numa deslocação, geralmente entre densa mata,  passível de ser sujeita a uma emboscada, de forças inimigas, ao longo de centenas de quilómetros, produziu em mim um cansaço enorme e,  por vezes, recordo-me, não me anguentava e adormecia.   Então o motorista acordava-me, pois, era suposto eu estar bem vigilante, para o proteger.  Por fim, bem me lembro, chegámos a Carmona, já relativamente perto do Vale do Loge.

Carmona era uma pequena cidade, se analisada à luz do que aceitávamos ser uma cidade naquele tempo e aqui, no nosso Portugal, que me pareceu ter algumas  semelhanças com Portalegre, no nosso Alto Alentejo, que eu bem conhecia. Isto por  meu avô materno, que não cheguei a conhecer  (por, na década de vinte, do século passado, ter falecido com a pneumónica),  ser natural de Portalegre e eu ter lá tido, por isso, uns tios, ambos também já falecidos (os meus Tios Arlette e Juvenal), para casa de quem, em miúdo, nas férias grandes, ia passar umas boas e saudosas temporadas.

Guardo de Carmona essa recordação e, hoje a mágoa de,  sendo aquela cidade a mais próxima da zona onde me encontrava  (e com todos os recursos e serviços de uma cidade),  não ter aproveitado,  como muitos camaradas meus fizeram,  para ir lá tirar a carta de condução automóvel, o que era ali bastante barato e fácil.   Mas eu na altura, por autêntica estupidez juvenil, achei que isso era coisa que, por um lado não me era estritamente indispensável  (eu, um pouco sugestionado por meu pai,  que nunca quis tirar a carta de condução, achava, de algum modo,  essa ferramenta, para a minha vida, algo de supérfluo)  e, por outro, mais tarde,  se achasse útil, o poderia fazer já na chamada metrópole.  Ora o que aconteceu foi que nunca o fiz (embora tenha feito uma tentativa, já nas Caldas, há cerca de dez anos). Hoje torço a orelha porque me faz de facto falta, mas, como diz o ditado, esta já não deita sangue e, por graça e com ironia, algo magoada,  costumo dizer que o farei na próxima encarnação.

Finalmente cheguei ao Colonato do Vale do Loge, tendo desde logo o desgosto de ver que a bonita mala de mão forrada a tecido azul, com uma fantasia de traços cruzados em azul mais escuro,  que trouxera na viagem e que os meus pais me tinham dado, para além de imensamente suja, com o pó da picada, ostentava vários buracos no tecido, por ter vindo assente numa rede a seguir à cabine da camionete, que com o sucessivo balançar da viatura, durante a viagem, a esburacou, para minha grande desolação. Foi um primeiro choque que tive,  naquele que seria o meu destino, por longos e penosos meses, a que muitos outros se seguiram.

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